Duas semanas sozinha na Provence: entre feiras, ônibus que não passaram e uma gripe pelo caminho

Eu escolhi passar duas semanas sozinha na Provence. Já conhecia a região e quis voltar porque achei que ela combinava com essa fase da minha vida.

Aquelas cidades cheias de história, as casas de pedra, as feiras, os cafés… Eu queria ter tempo para tudo isso. Andar, observar, escolher onde parar. Aos 57 anos, depois da aposentadoria, poder fazer uma viagem assim tinha um significado especial para mim.

E fui.

Só não imaginei que, além de conhecer cidades, eu ia conhecer tão bem os aplicativos de transporte.

Na minha cabeça, era só pegar o ônibus

Fiquei hospedada em Châteauneuf-du-Gadagne, numa acomodação muito bem cuidada, com uma cozinha equipada e transporte público por perto. Minha ideia era usar ônibus e trens para explorar a região.

Parecia simples. E em alguns dias foi.

Em outros, eu levantava cedo, me arrumava, saía no frio e ficava esperando um ônibus que não aparecia.

Teve uma manhã em que o das 7h21 não passou. Esperei o das 8h26. Também não passou. Com isso, perdi o trem que pretendia pegar.

A essa altura, eu já tinha tomado banho, lavado o cabelo e passado frio no ponto. Voltar para casa e encerrar o passeio não estava nos meus planos.

Acabei pedindo um Uber e fui para Pernes-les-Fontaines, onde tinha feira. Depois, segui para L’Isle-sur-la-Sorgue.

O passeio aconteceu. O orçamento é que precisou participar de uma reunião extraordinária.

As feiras merecem um capítulo

Eu gosto de ver os lugares funcionando de verdade. As pessoas comprando comida, conversando, escolhendo flores, carregando suas sacolas.

As feiras da Provence foram uma das partes de que mais gostei. Dá vontade de olhar tudo, parar em cada banca e levar para casa coisas que, minutos antes, você nem sabia que queria.

L’Isle-sur-la-Sorgue foi um desses lugares em que eu queria andar sem pressa. E também fui a Gordes num dia de feira.

Chegar a Gordes, aliás, exigiu outra negociação com os transportes. Depois de tentar organizar trem e ônibus, acabei indo de Uber. Para voltar, consegui pegar o ônibus das 12h35.

Eu queria liberdade para passear, mas descobri que precisava manter um relacionamento bastante sério com o horário da volta.

Um encontro com a história de Van Gogh

Entre os momentos especiais, esteve a visita ao Monastère Saint-Paul de Mausole, em Saint-Rémy-de-Provence, onde Van Gogh ficou internado.

Eu fui olhando os espaços e tentando imaginar aquela vida, naquele lugar. Estar ali trouxe uma proximidade diferente com uma história que eu já conhecia pelas pinturas.

Foi uma visita que ficou comigo. Dessas que continuam na cabeça depois que a gente vai embora.

É uma das coisas que mais me atraem na Provence: você está caminhando por uma cidade bonita e, de repente, se vê diante de um lugar com uma história enorme.

E então eu fiquei doente

Essa parte não estava no roteiro.

Tive febre, dor de garganta, dor no corpo e precisei ficar de cama. Sozinha, longe de casa, com um dia lindo acontecendo do lado de fora.

Eu tinha comida e pude ficar quietinha, descansar e esperar melhorar. Mas precisei abrir mão de passeios e cancelar uma hospedagem à qual não conseguiria ir.

O anfitrião foi muito atencioso na conversa. E essa atenção faz diferença quando a gente está doente e precisa resolver alguma coisa.

Depois da febre, ainda vieram o congestionamento e uma dor de cabeça daquelas. Até uma ida à farmácia virou exercício de comunicação: explicar o que eu sentia e tentar entender as orientações em francês.

Nessas horas, meu celular trabalhou bastante como tradutor.

As pequenas aventuras da vida prática

Também teve hospedagem com um jardim lindo, piscina e aquele espaço todo que dá vontade de aproveitar com calma.

Mas havia um detalhe: eu estava sem carro, numa propriedade com portão e controle remoto. Para sair, precisava pensar no Uber, no acesso e em como explicar tudo isso.

Coisas pequenas que, em outra língua, ganham uma dimensão nova.

Até perguntar se eu podia ir no banco de trás do carro exigiu uma preparação prévia.

E houve chuva entrando pela parede de pedra de uma das acomodações. A casa era linda e estava tudo muito bem cuidado, mas a água entrou mesmo. Na avaliação, elogiei o que gostei e contei ao anfitrião o que precisava de atenção.

Viajar também tem esse lado que não aparece na foto da janela.

Eu voltaria?

Voltaria.

Gostei de ter meus horários, escolher meus passeios e poder ficar mais tempo onde eu tinha vontade. Gostei das feiras, das cidades, da história e das pausas para comer alguma coisa e simplesmente olhar ao redor.

Também houve momentos em que eu teria adorado um ônibus pontual e alguém para fazer um chá.

Mas estou feliz por ter ido. Eu queria passar esse tempo comigo, conhecer mais da região e viver essa experiência. E vivi — inclusive as partes que jamais teria escolhido colocar no roteiro.

Agora, quando olho minhas fotos da Provence, lembro do que estava acontecendo em cada dia. Do caminho até chegar ali, das mudanças de plano, do frio no ponto de ônibus e da satisfação de finalmente sentar para almoçar depois de conseguir chegar.

No último dia, um passeio em família

No último dia, minha filha e minha neta já estavam comigo. Fomos conhecer Moustiers-Sainte-Marie e o desfiladeiro das Gorges du Verdon.

Moustiers foi um sonho! Fiquei deslumbrada com aquela cidade, olhando cada cantinho e querendo guardar tudo na memória. Foi um dos lugares que mais me encantaram nessa viagem.

E, apesar da chuva, ver de perto as Gorges du Verdon foi sensacional. Uma paisagem daquelas que fazem a gente parar e ficar admirando.

Depois de tantos dias passeando sozinha, terminar a viagem dividindo esses lugares com minha filha e minha neta foi muito especial. Voltei com mais duas lembranças lindas da Provence — e, dessa vez, vividas com elas.

As fotos ficaram lindas. As histórias deram um pouco mais de trabalho.

E você: já fez uma viagem em que os imprevistos acabaram rendendo tantas histórias quanto os passeios?

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