Quando cuidar da saúde vira julgamento sobre a aparência

Esta semana fui a uma dermatologista com uma preocupação muito específica: queria avaliar algumas pintas no meu corpo. Era uma consulta de saúde, algo que considero importante, principalmente nesta fase da vida.

Mas a consulta tomou um rumo que eu não esperava.

Em vez de se concentrar no motivo que me levou até lá, a médica começou a falar sobre a minha aparência. Questionou o fato de eu deixar meus cabelos grisalhos, de não realizar procedimentos estéticos e chegou a dizer que parecia que eu havia “desistido da vida”. Como se isso não fosse suficientemente indelicado, ainda me perguntou se eu não tinha marido.

Saí de lá chocada.

Aos 57 anos, tenho plena consciência das minhas escolhas. Deixar o cabelo natural, não fazer procedimentos e aceitar as mudanças do meu rosto não significa que eu tenha desistido de viver. Muito pelo contrário: significa que escolhi viver de uma maneira que faz sentido para mim.

Eu me cuido. Cuido da minha saúde, da minha alimentação, da minha forma de vestir e, principalmente, da minha paz. Tenho sonhos, planos e uma viagem prestes a começar. Estou descobrindo o mundo digital, criando novos projetos e vivendo um recomeço justamente em uma fase na qual algumas pessoas ainda esperam que uma mulher se torne invisível.

Isso é desistir da vida?

Não condeno quem pinta o cabelo, faz botox, preenchimento, cirurgia ou qualquer outro procedimento. Cada mulher sabe o que a faz se sentir bem. Se essas escolhas aumentam a sua autoestima e são feitas de forma consciente, elas merecem todo o respeito.

Mas as mulheres que escolhem não fazer também merecem o mesmo respeito.

O problema nunca esteve nos procedimentos. O problema começa quando existe a ideia de que toda mulher precisa fazê-los para demonstrar cuidado, vaidade ou vontade de viver. Como se envelhecer naturalmente fosse sinal de abandono. Como se uma mulher sem marido não tivesse motivos para cuidar de si. Como se a nossa aparência precisasse ser aprovada por alguém.

Um consultório médico deveria ser um lugar de acolhimento e segurança. O profissional pode orientar, explicar possibilidades e esclarecer dúvidas, mas não deveria transformar escolhas pessoais em julgamento — principalmente quando a paciente não procurou aquela consulta para receber uma avaliação estética.

Palavras têm peso. Dependendo do momento vivido por uma mulher, um comentário assim pode atingir profundamente a sua autoestima. Eu sei quem sou e fiquei indignada. Imagine alguém que esteja mais fragilizada, insegura ou tentando aprender a aceitar o próprio envelhecimento.

Não quero parecer mais jovem. Quero estar saudável, bem cuidada e em paz com a mulher que vejo no espelho. Meus cabelos grisalhos contam parte da minha história. As marcas do meu rosto mostram que eu vivi. Nada disso diminui a minha feminilidade, a minha vaidade ou a minha vontade de continuar sonhando.

Envelhecer naturalmente não é desistir da vida.

É apenas uma escolha.

E toda escolha feita sobre o próprio corpo, seja realizar procedimentos ou não, merece ser respeitada. Afinal, liberdade também é poder envelhecer do nosso jeito, sem precisar justificar a nossa aparência para ninguém.

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