Como fiz meu primeiro ensaio fotográfico com mais de 50 anos em Nova York

Eu nunca fui de aparecer em fotos.

Durante anos, fui a mulher que segurava a câmera, que organizava o enquadramento dos outros, que dizia “tira você, eu fico bem aqui”. Tinha sempre um motivo: o cabelo não estava bom, a roupa não era certa, o ângulo não favorecia. A verdade, que eu demorei para admitir, é que eu simplesmente não me sentia merecedora de ser a protagonista de nada.

Fazer um ensaio fotográfico em Nova York era um sonho que eu carregava há muito tempo. Um daqueles sonhos que a gente coloca numa prateleira alta, quase fora de alcance, e vai adiando com a desculpa de que “o momento certo ainda não chegou”. Até que, depois dos 50, eu decidi que o momento certo era aquele. Era o meu primeiro ensaio — e eu queria que fosse em Nova York.


Central Park: onde tudo começou

Começamos o dia no Central Park. Aquela luz dourada da manhã entrando pelas árvores, o barulho da cidade ao fundo como uma trilha sonora que você não pediu mas não dispensa.

O fotógrafo me pediu para andar. Só andar. Não posar, não sorrir forçado, não olhar para a câmera. Só caminhar como se eu estivesse sozinha naquele parque enorme.

E algo aconteceu.

Em algum momento entre uma caminhada e outra, entre uma árvore e um banco de pedra, eu esqueci que estava sendo fotografada. Comecei a olhar para as folhas, para as pessoas passando com seus cachorros, para o céu entre os galhos. E foi exatamente aí — quando eu parei de tentar — que as melhores fotos aconteceram.

O Central Park tem esse dom. Ele é grande demais para te deixar pequena.


Brooklyn: a ponte e o vento

Ainda de manhã, fomos para o Brooklyn, perto da ponte. Aquela visão que você já viu mil vezes em filmes e que, ao vivo, ainda consegue te surpreender.

O vento estava forte. Meus cabelos brancos voavam para todos os lados e eu, que sempre teria usado isso como desculpa para não tirar foto, desta vez simplesmente deixei. Deixei o vento, deixei o movimento, deixei o que fosse.

Tem algo muito libertador em estar numa cidade que não é a sua, onde ninguém te conhece, onde você não precisa ser a versão organizada e arrumada de si mesma. Nova York me deu isso: a permissão de ser exatamente quem eu era naquele momento — bagunçada, emocionada, presente.

O fotógrafo disse uma coisa que não esqueci: “As melhores fotos são as que a pessoa está olhando para longe. Porque aí a gente vê quem ela realmente é.”

Eu fiquei pensando nisso o resto do dia.


O café e a conversa

Depois do ensaio, fomos a um café conversar sobre tudo o que tinha acontecido. Foi um desses momentos inesperados que acabam sendo tão importantes quanto as fotos em si.

Ele me perguntou o que eu queria transmitir. E eu, que nunca tinha pensado nisso de forma tão direta, percebi que a resposta era simples: queria me ver. De verdade. Com os meus cabelos brancos, com a minha história, com tudo que eu sou depois dos 50 — sem esconder, sem editar, sem pedir desculpas por existir do jeito que existo.


O que um ensaio fotográfico realmente é

Antes disso, eu achava que ensaio fotográfico era coisa de modelo, de quem tem um corpo “certo”, de quem sabe posar. Depois disso, entendi que é quase o oposto.

Um ensaio é um convite para você se ver. De verdade, sem o filtro crítico que usamos toda vez que passamos na frente de um espelho. É uma pessoa de fora te devolvendo uma imagem que você mesma nunca conseguiria capturar — porque você nunca consegue se ver de fora quando está ocupada demais existindo por dentro.

E quando as fotos chegaram, alguns dias depois, eu fiquei em silêncio por um bom tempo.

Não porque eram perfeitas. Mas porque eram verdadeiras. Eu estava lá — toda eu, com meus cabelos brancos ao vento, com todas as marcas e toda a história — caminhando no Central Park, olhando para a ponte do Brooklyn.

E eu gostei do que vi.


Para quem carrega esse sonho numa prateleira alta

Se você tem um sonho parecido esperando o momento certo: ele já chegou. E quando estiver lá, na frente da câmera, com vontade de se esconder atrás de algum pretexto — não se esconda. Fica. Respira. Anda. Olha para longe.

Deixa que te vejam.

Você merece existir em fotos também.


Você já fez um ensaio fotográfico ou está pensando em fazer? Me conta aqui nos comentários — adoro saber como outras mulheres vivem essa experiência.

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